domingo, 10 de março de 2013

Geni.

Oi, meu nome é Genivaldo e não tenho muito o que falar sobre mim, minha vida é bem resumida, tenho dezessete anos, estudo o terceiro ano do ensino médio e vou fazer vestibular para psicologia, meu pai é militar e diz que psicologia é curso de viado, acho que qualquer curso pra ele seria de homossexual, pra ele homem tem que ser "caveira" e seguir o serviço militar, minha mãe me dá apoio na minha escolha, graças a Deus alguém por mim nessa casa, ainda tenho também uma irmã, a Maria e ela tem apenas sete anos, nas tensões da discórdia diária devido ao inflexível ego paterno Maria é quem traz paz a casa, moro num morro do Rio de Janeiro e toda essa monotonia da minha vida mudou depois que conheci o Jorge. Jorge era um cara legal, estudava na mesma sala que eu, tinha se mudado recentemente e logo fez amizade comigo, um dia fui a casa dele fazer um trabalho do colégio, ao chegar perguntei por seus pais e ele logo respondeu que estava só em casa, seus pais trabalhavam o dia inteiro, foi estranho, ele me levou a seu quarto e se retirou, eu fiquei um tanto desconfortável em casa alheia a sós comigo mesmo, depois de um tempo ouço a maçaneta da porta e antes que pudesse olhar fui logo soltando minhas mil e uma ideias sobre o trabalho até ser interrompido pela voz de Jorge que falou apenas meu nome, ao olhar vi Jorge totalmente despido, não consegui esbanjar reação, ele veio até a mim, cada passo parecia uma eternidade, foi estranho sentir tudo aquilo, frio no estômago, não sentia sangue em meus lábios, estava completamente nervoso, também pudera, na minha idade só havia beijado duas garotas e aquilo era completamente novo para mim, Jorge chegou, me tocou com força e me beijou, eu não exitei, foi eufórico a forma como tudo aconteceu, logo eu estava sem roupas também e senti corpo, mente e alma penetrar em mim quebrando qualquer lei física.
Jorge era um cara ótimo, me fazia sentir amado como jamais havia sentido, porém fazia isso com metade do colégio, homens, mulheres, crianças, qualquer um que se colocasse a mercê de todo seu ar galanteador, logo dei um basta com Jorge, ser só mais um me ofendia, mas não me incomodava o fato de ter gostado de outro homem, então enquanto outro não me cativasse como o Jorge e fosse somente meu decidi ficar sozinho e evitar maiores problemas com meu pai. Já tinha tudo programado em minha mente, estudaria, me formaria, nesse meio tempo estaria, com certeza estaria, com alguém certo que eu quisesse ficar, se o tempo de me formar fortalecesse os laços com tal pessoa seria o tempo ideal para assumir minha homossexualidade pouco me importando com uma possível não aceitação do meu pai já que não mais dele dependeria. Acontece que o destino me deu uma rasteira e más notícias, digamos assim, andam voando como os zepelins, não como aviões, falarei mais tarde do zepelim. Não sei através de quem, até onde eu tinha conhecimento apenas quem sabia da minha relação com o Jorge eramos nós dois, mas ao chegar em casa fui recepcionado com um tapa na cara, fiquei sem entender e logo meu pai me expulsa de casa dizendo que não aceita filho homossexual não me dando oportunidade nem de responder em minha defesa. Logo fui a casa de Jorge, mas não havia ninguém lá, nem no dia seguinte, nem no outro...
Não tinha mais onde ficar, meu pai também proibiu minha mãe e irmãos de manter qualquer tipo de contato comigo, morei na rua, minha mãe ainda se arriscava a trazer alimentos pra mim nos dias de serviço do meu pai... Mas eu não podia depender mais de caridade alheia, só havia uma coisa a se fazer... E foi o que fiz. Jorge pra mim já era pouco, Jorge, Lucas, Mateus, Mario, Guilherme, Zé, Alzira, detentos, loucas, lazarentos  moleques do internato, velhinhos sem saúde e viúvas sem porvir, foram tantos outros, descobri que podia ganhar dinheiro por amar e logo consegui alugar um kit-net e manter uma vida não luxuosa, porém melhor que estar na rua, até o João me dizer que eu poderia ganhar muito mais se deixasse de ser homem, aquilo ficou na minha cabeça e porque não? O próprio João financiou tudo em troca de quarenta porcento dos meus lucros e a partir daquele dia eu era Geni e por isso me jogavam pedras em forma de palavras em cada esquina que eu passava, mas nada me atingia, eu estava nesse mundo da forma que sempre desejei ter vindo a ele.
João, cafetão, traficante e comandante daquele morro, pensei que minha vida ia melhorar, mas ele não faz nada sem tirar proveito próprio nem que pra isso tenha que passar por cima dos outros, o que era quarenta porcento virou sessenta e já estava em oitenta e cinco, minha vida era quase em cativeiro privado em seu estabelecimento que oferecia prazeres banais aos outros... Isso mudou no dia que chegou o zepelim, um possante sem placa, preto fosco, esse sim voava, mais até que as más notícias, desse possante saíram cinco homens, um deles comandava os demais, entrou arrombando a porta do cabaré, e sem perguntar nada atirou na cabeça de João, as outras putas do cabaré gritavam diante de tal cena, mas sua voz forte como um trovão fez todas se calarem, ele disse que estava disposto a dar a todos ali o mesmo destino de João, mas que tudo aquilo poderia mudar se eu fosse a sua dama, Léo, como era conhecido, tomou o tráfico e a prostituição daquele morro sobre seu comando, assim como tomou meu coração, as quatro pedras na mão que eu ouvia a cada esquina já se calavam por temer o Léo, comecei a ser respeitada e foram tantos pedidos recusados para que eu partisse com ele.
E assim foram cinco longos anos em paz e quem dera se fosse assim pra sempre, parece que a missão do destino é me pregar peças e depois de uma noite alucinante acordamos com gritaria nas ruas, Léo pega sua pistola embaixo do travesseiro e me manda ficar dentro de casa, ele sai e dentro de alguns minutos volta, me dá um beijo e diz que o morro está sendo invadido por uma operação de ocupação policial, ele me beija e parte com a promessa de voltar, ouço o ronco do motor do zepelim soando como um adeus.
Deito de lado e em meio a lágrimas tento até sorrir achando graça do meu próprio destino que tanto me derrubou, até perceber que havia alguém ali em meu quarto, levanto na esperança de ver novamente Léo e tenho minha expectativa quebrada com a surpresa da presença do meu pai que me lança um olhar odioso, ele diz que minha mãe e minha irmã saíram de casa pela manhã para comprar pão e foram mortas na troca de tiros dos policiais com os traficantes, pensei por um momento que aquele poderia ser um momento de reconciliação, até ele completar que se eu tivesse escutado o que tantos pediram e tivesse partido com Léo aquilo não tivesse acontecido, ele levanta sua mão que expõe uma pedra só agora então vista e arremessa contra mim... Ela me atingi certeira no meio da testa, me fazendo cair, minha visão turva ainda vê meu pai de costas se retirando, ao longe posso ouvir tiros, por fim fecho os olhos e a ultima coisa que vejo é Léo em seu zepelim, o único homem que teve força pra me promover a liberdade.

(Inspirado na música Geni e o Zepelim de Chico Buarque)

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