sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Morte e Vida de Ruan


Era uma tarde comum, um domingo tedioso, futebol não era a programação preferida de Ruan, na verdade ele era um pós-adolescente crítico que odeia tv e via o futebol no país onde mora como um complexo sistema de investimento de verba que ao invés de promover a educação servia para entreter aqueles que já não se espantavam mais com os problemas sociais e econômicos de seus estados, cidades, bairros ou comunidades. Após um banho Ruan põe seu velho violão embaixo do braço e sai sem rumo, começa a vagar entre um dos bairros mais nobres, o bairro em que mora, enquanto observa o contraste que dá embaixo dos grandes prédios empresariais as pequenas casas em tijolo puro, o contraste dos carros importados trafegando na mesma via em que homens sujos puxam suas carroças carregadas de materiais recicláveis.

Ruan se dirige ao ponto de ônibus, algumas poucas pessoas indiferentes lá permaneciam, com algum tempo chega seu ônibus, ele sobe, paga a passagem e estranhamente as pessoas olham para Ruan, ele veste uma camiseta que expõe em seus ombros algumas tatuagens, uma bermuda jeans e na cabeça como de costume uma de suas boinas, Ruan se senta em um dos bancos ao fundo do ônibus ignorando os olhares alheios, tem seu olhar perdido na rua com sua cabeça encostada na janela, a cerca de quinze minutos ele chega a seu destino, um bairro próximo dentro da mesma cidade onde mora, um ponto mais turístico e ao mesmo tempo alternativo onde está o Marco Zero daquela cidade, aquele lugar o fazia bem, ele não sabia o porquê, mas o ar de lá alimentava sua alma, ao descer Ruan se dirige a uma praça ali próximo, em dias de festividades ela fica lotada de gente, mas contraditoriamente poucas pessoas freqüentam nos dias comuns ou finais de semana, no caminho uma senhora que não se apresentando o para, lhe entrega um panfleto e começa a desferir palavras sobre Deus, Ruan se sente diferente de todos, pois há nele uma hiper-atividade que o fazia pensar muito mais do que transparecia sua expressão em calmaria, enquanto a senhora desferia suas palavras Ruan pensava consigo mesmo: Quem é Deus? Ou seria Deusa? Pai nosso, mas porque não mãe? Temos como estudar a evolução humana, as provas científicas nos mostram uma verdade, porém podemos sentir Deus, ou Alá, através de nossa fé, porém se Deus não existisse, se tudo fosse obra da lei da atração e de sensações produzidas pela mente humana, do foco de nossas mentes que atraem enquanto pensamos fortemente no que queremos pedindo a “Deus”, mas se não for? Espera, mas se é uma lei física, quem fez as leis físicas? É fato que sabemos e podemos estudar e entender as leis físicas, mas quem as criou? Quem as colocou nesse mundo? Teria que ser um grande engenheiro para criar um sistema tão grandioso e complexo quanto o mundo em que vivemos, todo esse equilíbrio, oxigênio, gás carbônico e vice-versa que o trocamos com as folhas das plantas, as plantas que fazem parte da natureza, natureza que é vista como algo isolado das ações humanas, cada prédio e cada asfalto, como se não fossem prédios e asfaltos feitos da natureza humana, dos humanos que são fruto da mesma natureza a qual em suas mentes racionais tratam com desprezo por serem mais evoluídos... Homens, plantas, natureza, animais, tudo são seres-vivos compostos de corpos formados por outros seres-vivos, pode ser que no fundo sejamos apenas uma célula de um organismo grandioso que vive num mundo superior que compõe outro organismo num ciclo sem fim, esse ser que compomos o organismo pode ser a quem chamamos de Deus sendo assim seríamos mesmo uma célula cancerígena... Talvez não, enfim... Ruan cumprimenta a senhora como se tivesse prestado atenção em todas suas palavras e responde a sua ultima pergunta lhe dizendo de forma gentil e branda: - Irei ler o panfleto, que a senhora tenha uma boa tarde também.

    Ruan chega à praça de destino, alguns bancos rodeiam uma escultura que expeli água criando uma bola de gotículas, ele senta em um dos bancos virado para um observatório que tem do outro lado, fora da praça, põe no colo seu violão e começa a tocar, ele não sabe muito de violão, ele gosta mesmo é de cantar, aprendeu alguns acordes no violão para acabar com a sua dependência de encontrar os amigos que sabem tocar violão para que ele pudesse cantar e passar a tocar e cantar suas músicas preferidas ainda que esteja só. Legião Urbana é a banda preferida de Ruan e a qual ele sabe tocar mais músicas, toca algumas músicas, poucas de outras bandas também, logo ele é cercado por algumas pessoas, uma garota com um estilo um tanto rock e uma expressão tristonha senta no banco ao lado, no banco da outra extremidade da praça chega um homem com um capacete de moto, deita ocupando o banco inteiro já que a praça estava vazia colocando o capacete como apoio pra sua cabeça, o vigilante da praça se aproxima. Ruan olha ao redor, e vê o quanto está rodeado de pessoas e ao mesmo tempo tão só, enquanto toca o refrão de “Pais e Filhos”: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” pensava sobre a futilidade dos sentimentos das pessoas, Ruan há tempos não recebera uma ligação com um simples: - Como você está? Sem que ele antes fizesse uma ligação dizendo que não estava bem, ninguém mais para ninguém na rua pra dizer que devemos ser felizes ou pra perguntar por que estamos tristes, as pessoas acham educação não se meter na vida dos outros, Ruan achava humano se preocupar com o próximo, lembrou de uma vez que ia a faculdade e encontrou um mendigo chorando na calçada, ajoelhou-se e perguntou por que o menino chorava, o garoto responde que saiu pra arrumar comida pra levar pra casa, mas não conseguiu nada, comovido Ruan disse para o garoto esperar, correu num banco, tirou dinheiro, comprou pão e queijo e levou para aquele garoto, o sorriso daquele garoto, não há milhões que pudessem retribuir melhor tal atitude. Começou então Ruan a se questionar sobre Deus novamente, seria um Deus de destino ou de livre-arbítrio? Ruan, em particular, crê em livre-arbítrio, crê que somos donos de nossas próprias escolhas, afinal porque Deus colocaria no destino de uns serem pobres e de outros serem ricos? De uns serem excelentes exemplares do espécime sapiens-sapiens enquanto outros esbanjam feiúra? Uns felizes e outros infelizes? Há quem diga que é pra pagar nossos erros das vidas passadas, mas se erramos foi por escolha própria ou destino? Então Deus coloca erros em nossos destinos pra que voltemos a esse mundo reparar nossos erros e cometer outros? Não é nisso que Ruan crê, acha que não haveria no destino predestinado por Deus tanta crueldade, fome, guerra, peste, pecados, Ruan crê em planos, acha que Deus tem suas razões para a vida de cada um, mas não que tudo está escrito nas estrelas, na verdade o que está escrito nas estrelas é o passado e não o futuro e isso é física, se as imagens refletidas em luz viajam pelo espaço infinito. A música acaba sendo levada em acordes e letra pelo inconsciente enquanto Ruan viaja em pensamentos, por fim ele se levanta, o guarda acena pra ele com a cabeça, Ruan gentilmente retribui o comprimento.

Pega o ônibus de volta pra casa e se depara com um dos problemas sociais, transporte publico, para pensar sobre os problemas em geral, se fala de transporte publico, de segurança, de saúde publica, de poluição ambiental, desemprego... Já pararam pra pensar que pessoas bem formadas e especializadas poderiam melhorar tudo isso, e que antes disso, não só os gestores, mas se tivéssemos pessoas educadas causariam menos congestionamento no transporte, aumentaria a empregabilidade diminuindo assim a marginalização melhorando conseqüentemente a segurança, as pessoas bem educadas poluiriam menos causando menos problemas na saúde, não só em relação à poluição, mas pessoas bem instruídas lavariam as mãos e os alimentos, saberiam como se alimentar, saberiam a maneira certa e o momento certo para escovar os dentes, iriam prevenir melhor contra certos vírus, germes, vermes e que vermes são esses que não os políticos que investem bilhões em futebol para tapar os olhos dos que precisam de educação. No caminho de casa vê obras que só funcionam em época eleitoral. Ao chegar a casa dá boa noite a sua família reunida em frente à tela da tv assistindo o programa de auditório de maior audiência e Ruan novamente começa a pensar sobre a influencia da mídia na sociedade, na verdade não é influencia da mídia, mas sim influência do poder, a mídia é o caminho, tornando as pessoas alienadas e programadas pra viver dentro dos padrões da sociedade assimilando inconscientemente as mensagens subliminares de comportamentos, moda e tendências que melhor atendam as necessidades daqueles que querem que as pessoas pensem de tal forma chegando com isso até a movimentar o mercado interno, as comédias de frases feitas que se repetem toda semana causa sorrisos exagerados, causa ainda a reprodução automática das crianças que se inspiram no personagem tentando criar um perfil extrovertido em suas escolas.

Ruan chega ao seu quarto, tem passado tempos difíceis ultimamente em profissão, em emoção, e sua razão está acima de qualquer outro ser pensante... Os pensantes são as criaturas capazes de pensar, os pensadores são as criaturas capazes de formular seus pensamentos, são criaturas raras e geralmente solitárias. Ruan entra em seu quarto, se dirige a sua cama, se ajoelha na cama, passa a perna direita pela janela do quarto andar, logo após passa a perna esquerda se mantendo sentado na janela, o corpo quase por inteiro fora de casa, mas não pela porta de entrada tão pouco de saída, olha o trânsito dos trabalhadores que largam da labuta, congestionamento, luzes, mas o que mais o incomoda são os sons, sons de todo tipo, carros, motores acelerados, freios, gritos, vendedores ambulantes, crianças chorando, conversação sem foco, aviões, adolescentes.... Era ensurdecedor, atordoante, como as pessoas da minha casa, de toda casa conseguem assistir tv com esse barulho? Ruan caiu, Ruan sorriu, Ruan, por uma fração de segundos foi feliz.    

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