Um homem levava uma vida completamente comum, nasceu numa cidade não muito popular, estudou em uma boa escola, não era a melhor do bairro, mas era uma boa escola, fez amigos, muitos ficaram pra trás, mas alguns ainda o acompanhavam, saiu, dançou, bebeu e viveu assim como todos os outros jovens e assim como todos os outros jovens ele namorou, conheceu garotas, ele era galanteador e ter garotas elevava o seu ego. Mas este homem viveu sempre sendo passivo da vida e não ativo da sua própria até o dia em que conheceu uma mulher, a mulher! Ela não era eleita a mais linda da turma, nem a mais popular, mas a miss não mais o importava, aquela era a mais linda pra ele e quanto à popularidade foi contraditório como sua simplicidade a tornou muito mais linda, o homem conteve então sua vida jovial e se entregou ao amor, mas o homem não sabia amar, seu alto ego gerou um alter-ego que o fazia sentir melhor, maior, superior e eles não permaneceram juntos.
A bela moça se mudara para outra cidade e o homem continuou sendo passivo as esquinas da vida, logo ele não era mais tão jovem, logo em seu ereto topete clássico do século passado começara a criar entradas com ausência de precipitações capilares, as jovens já não eram tão mais facilmente levadas ao beijo, e os beijos já não saciavam como outrora, havia na caixa do correio invés de cartas que revelavam apreciação em anonimato agora contas a pagar. O homem olhava para trás, via sua vida e acabou por perceber que não fez escolha nenhuma, que simplesmente se deixou levar pela vida e descobriu que alegria é um estado passageiro produzido por falsas sensações de prazer, álcool, falsos amigos que conduzem a festividades banais, sexo, tudo isso trás alegria, que dura até, no máximo, o acordar do dia seguinte, felicidade é outra coisa, felicidade é plena!
Foi então que lembrou da bela moça, lembrou que apesar de todas as diferenças, apesar de nem todos os momentos terem sido de alegria, existia algo mais constante, entre os momentos de alegria e os momentos de tristeza o homem era feliz! Ele foi buscá-la, logo soube na pequena cidade pra onde ela havia se mudado. Ele precisava percorrer cerca de 16 km em sua bicicleta caloi com detalhes arredondados típica dos anos 80, atravessar o rio com a balsa e seguir mais cerca de 7 km a pé e chegaria onde mora a bela moça.
Então assim fez, pegou sua bicicleta, percorreu 16 km, não parou, exceto na casa de sua tia, que ficava no caminho, para tomar um copo de água e sem demora continuou seu percurso, chegando às margens do rio ele prendeu sua bicicleta numa árvore com uma corrente e um cadeado, e ao se dirigir a balsa que atravessara o rio desce dos céus onipotente como Deus, empunhando uma grande chave que se assemelhava a uma espada em suas mãos, olhar penetrante e vestindo uma armadura reluzente de prata ornamentada com várias gemas que pareciam ter muito valor nas quais nunca se viu igual nesse mundo e pondo-se defronte ao homem disse aquele que desceu dos céus: - Eu sou o Destino, e eu não permito que atravesse o rio. O homem apesar de impressionado não lhe deu atenção e continuou seguindo em frente. Ao chegar centímetros de proximidade do Destino o homem foi arremessado para trás com tamanha força, porém ele se levantou, e continuou em frente quando se repetiu a força que o empurrara e assim foi por mais seis vezes totalizando oito vezes arremessado e caído ao chão. Quando o homem viu que não tinha mais força física para encarar o destino ele levantou o rosto, o encarou, arrancou do pescoço uma corrente com o relicário como pingente de ouro 18kilates que sua mãe deixou em seu nome quando faleceu e desferiu a primeira palavra desde este encontro: - É meu destino ficar com o colar que minha mãe me deu? O Destino logo respondeu: - Sim, isso está nos planos.
Sem expressar mais nada e antes que o Destino pudesse esbanjar qualquer reação o homem arremessou o colar com tamanha força que o objeto alcançou a outra margem do rio. O homem se levantou novamente seguiu em frente e disse ao destino: - Pois então vou buscar meu relicário. Seu corpo passou fantasmagoricamente por entre a figura que lhe opunha, ele pegou a balsa e atravessou o rio, ao chegar do outro lado ele apanhou o relicário caído ao chão, se ergueu e ao olhar pra frente pra dar início à caminhada em busca da sua amada ele dá de cara com o Destino novamente, o homem novamente persistente e destemido após ter feito sua primeira escolha na vida não querendo mais assumir o estado de passividade foi em frente em direção aquele ser que logo lhe recomenda: - É melhor você não seguir em frente, não pode permanecer vivo se não for dentro de seu destino. O homem o ignorou e continuou seguindo em frente, ao se aproximar do Destino, este reconhecendo a bravura do homem e tomando a posição de um nobre cavaleiro pediu desculpa, ergueu sua chave que lhe serve de espada e desferiu um golpe contra o homem.
O choque da espada havia ferido o coração do Destino por ter tirado deste mundo a vida de um homem tão honroso e de tamanha bravura como não se via mais nessas terras desde as eras medievais, até se tocar que o choque causou som de impacto de metais e não de metal contra carne e osso. Ao olhar a sua frente, o Destino se depara com um guerreiro ruivo que vestia uma armadura de uma cor indescritível e emanava uma aura de um vermelho claro, rosado, o guerreiro a sua frente tinha longas barbas ruivas como seu cabelo, bela feição e segurava uma espada que mais parecia um segmento soldado de corações fictícios feitos de placa de metal. O destino ao dar por conta, notou que ao impedir o seu golpe o guerreiro a sua frente havia permitido a passagem do homem para terras que não pertenciam ao que estava em seus planos e logo questionou: - Quem ousa intervir nas minhas ações, eu que sou o dono da chave do destino e tenho pleno domínio sobre o futuro dos homens. O guerreiro a sua frente abre um meio sorriso no canto direito da boca e o retruca respondendo: - Eu, o amor, aquele que não há fronteira para ser vivido, aquele que não há tempo, distância, barreira, ou qualquer outro obstáculo que possa me impedir.
Os homens de coração destemido tendem a fazer seu próprio destino.